domingo, 18 de dezembro de 2011 0 comentários

Você foi embora sem dizer adeus




É sábado à noite e, apesar de todas as badalações oferecidas na pacata cidade de Itabira, Fábio resolveu esperar uma ligação. Para conectar-se ao mundo exterior, liga o celular e entra na internet. Antes de acomodar em sua cama, dá uma passada na cozinha. Pegou um chocolate, ao morder, sentiu os pedacinhos quebrados escorrendo suavemente em sua boca. Derrete. É suave, não enjoa. É um dos poucos chocolates que, de verdade, ele não consegue parar de comer. De combustível na mão, volta ao quarto. Ele ainda agradava a ligação. E como todo mundo, ele espera alguma coisa de um sábado à noite. Bem no fundo queria zoar e dizer que a vida é boa.
Essa cena poderia ser parecida à de tantas outras noites, não fosse o fato de que nesta data específica Fábio teria uma ideia que viria a mudar muita coisa em sua vida, dali em diante. Envolve-se em conversas cibernéticas e a muito chocolate. Um amigo seu está online e, pelo Facebook, os dois engatam um papo que fica cada vez mais animado, à medida que o tempo passada.
Eu estou correto, mas o outro é o que está errado, tem que mudar!” Uma frase tão simples, mas que ecoava por todos os lados de sua mente. Por mais que tempo passasse e a conversa estendesse, aquele garoto magro como um palito, que estava suando e com os olhos ligados e atentos a qualquer movimento desordenado do telefone. Deixava nitidamente transparecer a sua desilusão, a ponto de se perguntar: “É um sinal? Aposto que vou terminar esse dia abraçado com meu travesseiro. Mas olha, não queria, sinceramente acho que a vida me detesta. Só pode.” Sendo um grande altruísta, sentimental incurável, e mais interessado nos outros que em si próprio. Esse fato, em especial, foi a água fria que mais jogou o seu futuro no ralo. Depois dali, ele estaria preparado para um ritual de passagem: A primeira decepção. Algo que, até então, ele desconhecia.
Estas palavras foram definitivas para as suas ideias, que a principio, eram animadoras, mas que agora não passavam de meras realidades. Com dizia o poeta Drummond : " E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana." O menino de Itabira aprendia naquela noite, que deveria se colocar em primeiro lugar e sempre afrente de qualquer coisa. Em meio a penumbra, ele estava deitado e agora pensativo sobre a vida.
Ao lado da janela, uma das camas de madeira. Simples e com uma moldura não muito detalhada, apenas uma imagem cravada na madeira, ao centro. Similar ao deus do vento Aeolus. Abaixo, uma paisagem envolta a uma esfera oval de mateira. Quase batendo no final da cama havia uma escrivaninha com três gavetas, que ocupava todo aquele pedaço de parede, que leva à porta. Na parte superior, tinha o som e um quadro pintado pelo seu irmão, com pessoas de diversos tamanhos. Um pouco mais abaixo, um porta-canetas e muitos outros objetos largados. No canto inferior esquerdo da escrivaninha, havia uma prateleira com uma fileira de livros até a metade e depois uma caixa de sapato completando o espaço. Na última, agora no canto direito, havia um cofre branco feito de mogno, árvore nativa da Amazônia. Na parede oposta ficava à outra cama, mais acima, um quatro com duas crianças atravessando uma ponte e um anjo da guarda. Dentre os objetos percebemos que se trata de um quarto que tem todas as dimensões ocupadas.
A única coisa que não era ocupada dentro do quarto era o coração daquele garoto. Na verdade, até existe alguém capaz de curar sua dor, mas esse alguém não costuma ter pressa, e ele se chama ''tempo''. Os seus devaneios só aumentavam. Queria mergulhar em abismos, e ao passo que queria a mão de Deus a envolvê-lo. Mais enquanto isso o tempo corria, os ponteiros do céu se moviam. Estava marcando o último segundo daquele sábado.
Cada instante que se passa o desejo, a estranheza, a culpa e a agonia que se faziam presentes. Ele percebia, que isso era apenas o começo da vida. Afinal, a vida é um risco constante em que nada é certo ou calculado. Todos os fenômenos cerebrais e afetivos que constituíam o seu instinto sexual, não podiam ser resumidos em uma só palavra: Amor. Algumas vezes, falamos para nós mesmos que não sabemos o significado da palavra amor, mas podemos senti-lo.
A partir de então Fábio mudou completamente, já não era mais o homem carinhoso cheio de promessas, a partir daí sempre muito frio para as histórias de amor. Por mais que o arrepie ou atraia. Ali, talvez, ele desejasse que tudo acabasse bem. Ali, talvez, que tudo estaria resolvido ao receber a ligação. Talvez.
É esse era um momento só dele, um momento de carência, de solidão e uma vontade louca de encontrar alguém que se perdeu no tempo. Dizem, que a felicidade aparece para aqueles que choram, para aqueles que se machucam, para aqueles que buscam e tentam sempre. Chorava. Simplesmente, ele chorava, como uma criança.
Mas este seu jeito simples, era o distanciamento do mundo. As estrelas lá no céu já anunciavam o novo dia. E ele, fascinado pela brisa macia e o brilho das estrelas. Sentiu crescer, súbito, na alma, uma vontade de declamar: “ Às vezes o amor dura, mas, às vezes, fere.”

Porém depois das lágrimas enxutas, sentou em sua cama, e viu a brisa passar. Olhou para o celular, e o desligou. Ontem poderia ser o momento de sua vida, mas agora ele transformou sua tristeza em um “ouro precioso”. Por que sabia que era a última vez. A última vez, ou não.
 
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